Maria Padilha: De Rainha de Castela a Pomba Gira de Umbanda

Maria Padilha: De Rainha de Castela a Pomba Gira de Umbanda

Maria Padilha é um dos fenômenos populares mais interessantes de deificação da figura feminina. É uma personagem que transcende a história. Conhecida na Idade Média como amante do rei de Castela – Pedro I, o Cruel – Maria Padilha tornou-se, com o passar do tempo, uma entidade cultuada como símbolo de sedução, feitiçaria e poder feminino.

Ela passou por algo muito parecido com aquilo que, no Brasil, vamos chamar de encante. Sim, Maria Padilha é um espírito encantado, fruto de uma antiga e mística encantaria ibérica, que adentrou com muita facilidade nos cultos afro-brasileiros e na feitiçaria popular. Neste artigo, vamos explorar tudo o que conhecemos sobre essa entidade que é temida como uma feiticeira, mas amada como uma deusa.

Quem Foi Maria Padilha?

Virginiana, ela nasceu em 15 de setembro de 1334, na região de Palência, com o nome de María Díaz de Padilla. Filha de María González de Hinestrosa e Juan García de Padilla, provinha de uma família da baixa nobreza castelhana, que fazia parte do grupo de apoiadores dos reis de Castela.

Em 1352, quando tinha por volta dos 18 anos, ela foi apresentada a Pedro I, pouco tempo depois de ele ter assumido a coroa, aos 16 anos. Por intermédio de João Afonso de Albuquerque, mordomo-mor de Maria de Portugal (rainha de Castela e mãe de Dom Pedro I de Castela), ela serviria como dama de companhia na palácio.

María de Padilla possuía os cabelos longos e os olhos negros, da cor da noite. Considerada uma mulher extremamente bonita e sedutora, rapidamente o rei tomou-a como sua amante preferida. Há quem diga que ele foi enfeitiçado. Fato é que, utilizando-se da sua beleza e inteligência, ela se tornou uma das mulheres mais poderosas e influentes da sua época.

María de Padilla nua no Alcázar de Sevilla em frente a Pedro I, em uma pintura de Paul Gervais

Sua Relação com Pedro, o Cruel

O rei Dom Pedro I de Castela foi oficialmente casado com a princesa Branca de Bourbon, filha rei Felipe VI da França. Este teria sido um casamento arranjado e realizado em 1353 para consolidar alianças políticas entre o reino de Castela e o reino da França.

Apesar do casamento formal, Maria Padilha passa a ser a amante principal do rei. Ela era a concubina do rei e é dito ter sido o seu único amor. Tudo isso era de conhecimento público na corte. Ele teria se apaixonado por ela de forma tão irresistível ao ponto de abandonar a sua esposa para viver com Padilha.

Essa relação entre Pedro e María era considerada tão escandalosa e inadequada que causava grande resistência na corte. Principalmente, quando ela passou a desempenhar o papel de conselheira do rei. Por contar com a sua preferência, María se sobressaia sobre a rainha Branca de Bourbon.

Pedro e Maria se relacionaram por mais de uma década e tiveram quatro filhos: Isabel, Beatriz, Constança e Afonso. Ele fez questão de legitimá-los e alguns deles chegaram a disputar a coroa do reino, após a morte do pai, em 1369.

A Morte de Maria Padilha

As circunstâncias da morte de Maria Padilha são incertas e cercadas de mistérios, não estão bem documentadas e envolvem uma combinação de relatos históricos e tradições populares. A data exata da morte dela não está registrada, mas teria acontecido entre os anos de 1361 e 1370. É importante esclarecer que a maioria das informações sobre a vida e a morte dela vem da cultura popular, e não de registros históricos precisos.

Uma das história mais consolidadas, conta que ela sofreu uma morte prematura em julho de 1361, aos 27 anos de idade. Isso teria ocorrido por motivo de saúde. Nove meses depois, o rei anuncia que eles teriam se casado em segredo na Igreja de Santa Maria, em Burgos. A união teria ocorrido antes dele se casar formalmente com a princesa Branca de Bourbon, em 1353, e com Joana de Castro, em 1354. Maria Padilha, portanto, teria sido a esposa legítima do rei, como de fato veio a ser reconhecida posteriormente.

A tradição oral e a cultura popular vão dar conta de que Padilha teria morrido depois do rei Pedro I. Essa história se popularizou, principalmente, por conta dos romances medievais que os poetas e trovadores contavam sobre o amor do casal. Nessa história, Pedro partiu para guerrear com seu meio-irmão, Henrique de Trastâmara, que o desafiou pelo trono e perdeu. Ele morreu em março de 1369 e o irmão vitorioso assumiu a coroa. Padilha sofre com a morte de Pedro e, com a ascensão do irmão rival, é isolada e morre no ano seguinte, sendo reconhecida como a esposa de fato do rei.

Un día llegó la noticia,
de que Pedro había caído,
y su alma, llena de pena,
en el aire se había ido.

“¡Oh, rey mío, amado mío!
¿Dónde está tu valor?
Sin ti, mi vida es sombra,
sin luz, sin calor.”

Romances Viejos, de Martin Núcio

Pedro havia solicitado que Maria Padilha fosse enterrada com honras e em um local respeitável, como uma forma de formalizar a importância dela em sua vida. Ela é sepultada em Astudillo, onde havia fundado um convento. Com a confirmação de que era a esposa legítima do rei, seus restos mortais foram transferidos para a Capela dos Reis, na Catedral de Sevilha. Hoje,lá descansam junto aos de seus filhos.

O Surgimento de uma Lenda

A história do romance proibido entre Maria e Pedro se tornou muito conhecida e aceita na cultura popular. Principalmente, depois que ela foi reconhecida como a esposa legítima do rei. Então, após a sua morte, Maria Padilha assume o estereótipo de transgressora da ordem estabelecida.

Ela inspirou o imaginário popular que, com o passar dos anos, encarregou-se de difundir essa imagem da rainha poderosa e perversa. Acreditavam que, com poderes mágicos, ela manipulava o rei, fazendo dele seu amante apaixonado. Dessa forma, Maria Padilha torna-se o protótipo da amante poderosa, que havia sido capaz de dominar o coração e a vida de um poderoso rei.

” El cruel Pedro llamado,
Casou-se com Dona Blanca,
Fuese para Montalván,
Que alli es barraganado,
Com Dona Maria de Padilha,
Que lo tiene enhechizado”.

Romances Viejos, de Martin Núcio

Primeiramente, ela aparece na Crónica del Rey Don Pedro, escrita por Pedro López de Ayala no final do século XIV. Na obra, escrita para justificar a ascensão de Henrique de Trastâmara ao trono, Maria Padilha é retratada como uma figura central na vida de Pedro. Ela é descrita como uma mulher boa e inteligente, ao contrário de seus familiares que aconselhavam o rei a agir de maneira despótica.

A crônica relata como Pedro escolheu viver com Padilha mesmo após se casar com Branca de Bourbon. Relata como ele implorou o amor de Padilha após se casar com Joana de Castro um ano depois, prometendo abandonar a esposa para ficar só com ela. Relata a reunião na corte em que ele anunciou ter se casado em segredo com Maria Padilha, fato esse que pode não ter sido verdadeiro, mas motivado pela paixão avassaladora que sentia.

Posteriormente, Maria Padilha aparece em romances de cordel e músicas populares do século XV e XVI. Especialmente, à partir de 1547, com a compilação dos Romances Viejos, do editor Martin Núcio. Nesses livros, que continham uma compilação desses contos populares, havia uma série de poemas épicos sobre o amor de Maria Padilha e Pedro.

Em dezembro de 1841, no Teatro La Scala, em Milão, estreia a ópera intitulada Maria Padilla, de Gaetano Donizetti. Essa mesma ópera apresentou-se no Rio de Janeiro, pela primeira vez, em 1856. Maria Padilha também aparece na ópera Carmen, de Georges Bizet, em 1875. A cigana Carmen, protagonista da ópera, faz alusões à figura de Maria Padilha através de seus conjuros, cantando cantigas mágicas e invocando o nome da rainha de Castela.

Padilha era conhecida pelo povo cigano como Barí Crallisa – a rainha dos ciganos – e, nessa época, já havia um culto bem consolidado a ela na Europa e no Brasil.

Maria Padilha, a Rainha da Bruxaria

Maria Padilha tinha como profissão de fé o cristianismo. Ela fundou um convento de clausura, onde teria vivido depois que Pedro casou-se secretamente com a portuguesa Juana de Castro. Entretanto, toda a península ibérica naquele tempo era cheia de mouros, ciganos e judeus. Toda a cultura religiosa da época estava envolta em misticismo, superstições e rituais pagãos.

Com sete espadas encantadas e um punhal de ouro, fechei meu corpo em
Elche. A Dama me olhava. O Céu ficou todo negro. Relâmpagos cruzaram
os céus na hora mágica desse rito antigo. Meus sacerdotes de magia
negra usavam capuzes. Meu bobo da corte também estava lá, como a
vítima sacrificial de um rito pré-histórico; […]. Havia ainda um bode
negro, com os chifres enfeitados de flores, […]; era o símbolo do Diabo, o portador do
mal, ligado aos bobos e aos anômalos.

Os Conjuros de Maria Padilha A verdadeira história da Rainha Padilha, de seus trabalhos de magia e de suas rezas infalíveis, de Maria Helena Farelli

Segundo a tradição popular, Maria Padilha foi iniciada nos rituais da bruxaria ibérica na cidade de Elche, na Espanha. Com a chegada dos ciganos, na metade século XIV, ocorreu uma identificação desses com Maria Padilha, que passaram a chamá-la de Barí Crallisa – a rainha dos ciganos.

Lembremos que o culto às almas dos mortos e ancestrais é central na cultura popular e religiosa. Padilha era invocada tanto nos rituais de feitiçaria quanto nas mesas ciganas. Durante a Inquisição, apareceram muitos conjuros e invocações de Maria Padilha, utilizados com o objetivo de fazer as pessoas conquistarem os seus amores. Os conjuros invocavam Lúcifer, Satanás e de dona Maria Padilha com toda a sua quadrilha.

Ao longo do tempo, Maria Padilha foi se transformando na Rainha da Bruxaria, dentro da cultura popular. Bruxaria essa que não é essa coisa new age e romantizada que conhecemos hoje. Estou falando do bruxedo, magia negra, feitiçaria popular, com pactos demoníacos em favor de benefícios egoístas e individuais. Maria Padilha era sempre requisitada para os trabalhos de amarração, dominação mental, separação de casal, destruição de rivais e etc.. Para tudo aquilo que lhe haviam atribuído em vida.

Esse vínculo de Maria Padilha com os ciganos fará parte do imaginário e da memória popular. Assim como o de bruxa poderosa e sedutora, capaz de submeter a vontade e coração dos homens. Foi com essa fama que o seu culto atravessou as fronteiras da Península, vindo chegar aqui na Terra de Santa Cruz, no Brasil colonial.

Manifestações de Padilha no Brasil

Padilha vem parar no Brasil através do imaginário e da memória, principalmente, dos ciganos que foram degredados para o Brasil, a partir de 1574. Era fato comum que, uma pessoa condenada pela inquisição fosse degredada ao invés de sofrer a pena capital. Então, muitos ciganos, mouros e pessoas condenadas foram enviados, a partir dessa época, para o Brasil. Principalmente, para o nordeste brasileiro.

Ao longo do século XVII, vamos encontrar registros da feiticeira portuguesa Maria Antônia, conhecida como Maria Paixo, degredada da cidade do Porto. Na Bahia, tinha-se notícia da bruxa Antônia, a Nóbrega, que possuía uma expressiva clientela feminina. Também, há notícias de uma velha degredada para o Brasil em maio de 1633, conhecida por Ana Martins. Essa última, uma conhecida feiticeira portuguesa, com noventa anos de idade, que efetuava os conjuros de Maria Padilha e toda a sua quadrilha, invocando os nomes de Lúcifer, Barrabás, Caifás e Satanás.

No século XVIII, em 1718, tem-se notícia da bruxa Antónia Maria, natural de Beja, Portugal. Ela foi acusada de seduzir um de seus vizinhos e de utilizar rezas e conjuros, invocando Maria Padilha e toda a sua quadrilha, e os nomes de Lúcifer, Caifás, Barrabás e Maria da Calha e toda sua canalha. Ela foi presa em 23 de janeiro de 1720, extraditada para Portugal, julgada e condenada à prisão perpétua.

As lembranças trazidas pelas feiticeiras portuguesas foram se expressando, por meio do imaginário, em vários lugares do Brasil colonial. Há vários registros dessas condenações, tanto no Brasil quanto em Portugal. Todas que invocavam o nome de Maria Padilha eram vistas pela Igreja como bruxa ou feiticeira e seus poderes eram considerados demoníacos.

Por Que Maria Padilha é Tão Cultuada?

Os primeiros portugueses trouxeram para o Brasil as memórias das crenças populares europeias. Essas memórias se mesclaram com o imaginário dos indígenas e dos africanos, originando as
primeiras comunidades religiosas sincréticas afro-indígena-luso-católica, conhecidas como Calundus.

Na segunda metade do século XVII, através da relação – nem sempre amigável – entre indígenas, ciganos, bruxos e feiticeiros europeus, surgiu o catimbó, com seus mestres e mestras de luz. Paralelamente, também surgiu o bruxedo ou feitiçaria popular brasileira, em que se cultua os mestres das trevas. Esse culto, o qual Maria Padilha estava inserida, era baseado nos antigos ritos à a Moura Torta (a bruxa de Évora) feitos pelas bruxas portuguesas nos sabbaths. Maria Padilha, portanto, é uma dessas mestras das trevas, assim como Maria da Calha, Maria Molambo, Antônio do Diabo e outros.

A primeira manifestação mediúnica de Maria Padilha que se tem notícia, no Brasil colonial, teria ocorrido no final do século XVIII, em um Toré. Nesse culto, ao incorporar na médium, Maria Padilha soltou sua gargalhada, fumou um cigarro e se identificou como estrangeira, dizendo que estava só de passagem. Posteriormente, no século XIX, Maria Padilha é vista se manifestando em Recife, em um cortejo de maracatu conhecido como Nação do Leão Coroado. Ela dançava e dava gargalhadas debochadas e desafiadoras.

Depois de se manifestar por vários anos no nordeste brasileiro, o culto a Maria Padilha migrou e se solidificou no Rio de Janeiro. A partir do final do século XIX, ela começa a se manifestar com frequência na macumba carioca e, posteriormente, na umbanda e na quimbanda, onde passa a ter o status de rainha – a mulher de Lucífer. Assim, ela se torna o arquétipo da Pomba Gira.

Apesar disso, é importante deixar claro que a Maria Padilha de Castela não é Pomba Gira. A verdade é que esses espíritos conhecidos antigamente como Mestres das Trevas adentraram o recinto das religiões populares. Muitos deles foram arregimentados para dentro dos terreiros a fim de cumprir com os trabalhos “à esquerda”, de quebra demandas e malefícios. Tantos outros permanecem no mal a fim de corromper através da vaidade, da inveja, da ira, da ganância, do orgulho e do ciúme.

Maria Padilha habita essa zona cinzenta dos espíritos que agem com dubiedade. Tanto desmancha quanto faz o mal, independente das consequências. Ainda hoje, é a mais requisitada nos trabalhos de amor coercitivo (amarração), dominação mental e destruição de rivais. Mas também trabalha para o sucesso financeiro, sedução e magnetismo pessoal.

Como Fazer um Pedido Para Maria Padilha?

Veja que, quando eu falo sobre Maria Padilha, eu não falo sobre a Pomba Gira Maria Padilha, e sim o egum ou kiumba Maria Padilha. Uma mulher infernal e não um Guardião da Lei. Hoje, muitas entidades usam o nome de Maria Padilha. Tornou-se nome de falange, pois é o que está ao alcance dos médiuns como figura imagética do que é uma Pomba Gira. Por isso ela é tão popular, e está tudo bem.

Dito isso, é importante salientar que Maria Padilha, a bruxa feiticeira, possui muita força no baixo astral, regendo suas próprias hostes infernais. Ela trabalha, principalmente, através de pactos e acordos astrais. Deve ser chamada em uma encruzilhada, sempre à meia-noite. E deve ser tratada sempre com muita reverência e cordialidade.

Nunca ofereça algo barato, quebrado ou de má qualidade, pois é o que ela vai te dar em troca. Quando ela fizer o que você pediu, pague o que lhe prometeu! Não queira dever para essa mulher, portanto, nunca prometa o que não pode cumprir. Ela gosta de velas e rosas vermelhas, tecidos e perfumes caros, moedas, pulseiras, anéis e colares de ouro, espelhos, espumantes, frutas, mel e cigarro. Tudo do bom e do melhor.

Ponto Cantado de Maria Padilha

Ai, que noite tão linda
Ai, quanta escuridão
Ela é Maria Padilha
Que mora debaixo do chão

É Satanás, é Ferrabraz
Ela é o cão da minha
Oi, quem tá aqui
É Maria Padilha

Salve Maria Padilha e sua quadrilha! Quer aprender mais sobre Maria Padilha e outras entidade? Considere entrar no nosso Grupo de Estudos em Espiritualidade e Magia Afro-brasileira.

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