A Ilusão do Destino/Livre-Arbítrio

A Ilusão do Destino/Livre-Arbítrio

Não há coisa mais inocente na humanidade do que a ilusão do livre-arbítrio. Nós, reles mortais, não arbitramos praticamente nada. Ao contrário, somos determinados por diversos fatores condicionantes da nossa realidade.

Do ponto de vista hermético, esses condicionantes podem ser compreendidos através da chave trina dos Mistérios: os Mistérios Divinos, os Mistérios da Natureza e os Mistérios da Humanidade. Neste último é onde as almas se encontram com a angústia e o sofrimento natural da própria existência. A somatória disso tudo é o que chamamos de destino.

Deus nos fornece a providência do inefável, do indescritível e do indefinível. Nossos condicionantes biológicos, histórico-sociais e familiares estão nessa categoria. Nós não nascemos em iguais condições nem com as mesmas capacidades. Não podemos escolher a nossa condição física ou genética, com suas funções orgânicas ou predisposições a diversos tipos de males. Nem podemos escolher a família em que nascemos, se rica ou pobre, funcional ou problemática. Muito menos as nossas oportunidades materiais de convivência e prosperidade. Tudo isso é da razão da providência.

A Natureza nos fornece as condições orgânicas de existência, com suas leis absolutas e inquebrantáveis. É ela que dá as condições de causa e efeito para a manifestação das coisas, inclusive dos organismos e eventos naturais. Nós sentimos calor, frio, fome, sede, medo, desejo, prazer. Além disso, estamos sujeitos às intempéries do tempo, aos cataclismas e às tragédias naturais, incluindo a morte e a doença. Tudo isso é da razão da natureza, assim que é.

A humanidade nos fornece as condições de convivência, outra coisa que nós não escolhemos. A moral do nosso tempo, a nossa cultura e costumes, e todas as coisas que valoram as pessoas segundo certos marcadores sociais, estabelecendo hierarquias, classes e status que determinam como seremos considerados, vistos e tratados. Assim como a forma como as pessoas nos tratam, nos desejam e nos usam desde que nascemos até o fim de nossas vidas. Nós não escolhemos isso.

As escolhas do ser humano são condicionadas por todos esses fatores que determinam o nosso ser e, consequentemente, o nosso destino. A diferença do ser humano para um animal é que nos resta uma fagulha de razão sobre a própria miséria existencial. É através dessa razão que desenvolvemos a autoimagem, o autovalor e a consciência de si em relação ao outro. Mas tudo isso é determinado; nós apenas tomamos consciência da nossa condição.

Essa consciência vem com a reflexão sobre a própria existência e suas possibilidades de mudança. Somente as escolhas tomadas conscientemente, a partir dessa reflexão, é o que poderia ser chamado de livre-arbítrio, pois é uma mudança conscientemente determinada pelo indivíduo. É o que ele escolhe, conscientemente, dentro das suas possibilidades determinísticas.

O destino, portanto, não é fixo ou fatal, mas é uma relação de causa e efeito determinada pela providência, pela natureza e pelas ações humanas. Assim como o livre-arbítrio não é agir livremente de acordo com os desejos, mesmo sem consciência das condições determinantes da própria existência. Pelo contrário, livre-arbítrio é agir de acordo com a sua vontade livre e consciente.

A verdadeira liberdade vem com a consciência sobre si e sobre as próprias condições determinadas. Aqueles que jazem adormecidos no prazer e na dor são meros fantoches do destino, onde a ilusão do livre-arbítrio os faz crer que são titeriteiros da própria vida, mas não passam de animais que reagem instintivamente aos estímulos do meio ambiente.

É assim que vive a maioria das pessoas, inconscientes do que passam na vida e em ciclos infindáveis de sofrimento que são o reflexo de si mesmas. Não são livres pela escolha, mas presas pela própria inconsciência, pois liberdade não é escolher, mas estar consciente das escolhas que faz.

Agindo conscientemente, podemos fazer escolhas melhores, nem sempre de acordo com o que desejamos. Mas podemos fazer escolhas estratégicas, que ressoam com a nossa vontade, dentro das nossas condições. Com o tempo, podemos até melhorar essas condições e construir um futuro melhor. Mas isso passa pelo manejo consciente dessas contingências que determinam o destino.

No final, livre-arbítrio e destino parecem duas faces da mesma moeda. Livre-arbítrio é destino, e destino é encontrar o livre-arbítrio. Parece ser essa a missão da alma e o caminho da existência: tomar consciência de si para agir livremente no mundo, desenvolvendo uma vida ativa — e não reativa — perante os desafios da vida. Essa vida ativa (agir conscientemente) é o que oferece oportunidades de melhora da qualidade de vida.

A questão é: o quão consciente eu estou de mim mesmo? E, para além disso: o que eu posso fazer para melhorar o meu destino?

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